Vivemos um momento de transição onde a interdependência global é questionada e novas estratégias surgem para equilibrar autonomia e cooperação. Este artigo explora como a desglobalização impacta economias, sociedades e oportunidades locais, especialmente no Brasil.
O que é Desglobalização?
Desglobalização refere-se à reversão da globalização econômica, marcada pelo enfraquecimento dos fluxos comerciais e pelas barreiras ao livre trânsito de bens, serviços e pessoas. Historicamente, observou-se entre 1914 e 1970 um declínio no comércio como proporção da atividade econômica nos países desenvolvidos.
No contexto contemporâneo, o termo ganhou força após eventos como o Brexit e políticas protecionistas que enfatizam priorização de autonomia nacional e relocalização de cadeias produtivas.
Principais Causas do Fenômeno
- Críticas à globalização: A ampliação das desigualdades e a concentração de renda via automação exigem mão de obra altamente qualificada, deixando trabalhadores periféricos em desvantagem.
- Eventos geopolíticos: O Brexit representou a rejeição a blocos regionais consolidados, enquanto tensões comerciais EUA-China e políticas protecionistas de governos como o de Trump abalaram cadeias globais de suprimentos.
- Fatores econômicos: A desindustrialização precoce no Brasil, com queda da participação do setor industrial no PIB, evidenciou migração de produção para a Ásia e a hipercompetitividade global ameaçando exportações industrializadas.
- Impacto da pandemia: A crise da COVID-19 interrompeu fluxos de pessoas e mercadorias, causando retração de 3% do PIB mundial em 2020 e reforçando a necessidade de fortalecer economias locais.
Sinais e Exemplos Globais
Em vários continentes, governos e empresas reavaliam o modelo de integração total. A seguir, alguns casos emblemáticos:
Esses episódios demonstram não apenas rupturas, mas também oportunidades para relocalizar indústrias e desenvolver políticas de comércio bilateral mais equilibradas.
Vantagens e Retornos Locais
- Revitalização de economias regionais: A relocalização de fábricas e o incentivo a fornecedores locais geram empregos e geram renda nas comunidades.
- Autossuficiência em suprimentos críticos, reduzindo riscos de escassez e dependência de fornecedores distantes.
- No Brasil, o agronegócio sustentável e a mineração responsável oferecem nichos para diversificar exportações e valor agregado.
- Alinhamento com blocos regionais alternativos, como Mercosul e APEC, permitirá atender demandas locais com maior eficiência.
Investir em tecnologia e infraestrutura adequadas é essencial para aproveitar essas vantagens e fortalecer a posição competitiva do país.
Desafios e Consequências
A retomada de mercados locais não está isenta de desafios complexos:
1. Fragmentação comercial e queda da competitividade internacional, gerando escassez de matérias-primas e inflação em setores-chave.
2. No Brasil, a dependência de commodities e o aumento das importações de bens de capital prejudicam a reindustrialização e limitam o crescimento do setor manufatureiro.
3. Apreciação cambial ocasional, motivada por entradas de capital especulativo, encarece exportações de bens comercializáveis e agrava desequilíbrios.
4. Impactos sociais incluem desemprego estrutural e risco de populismo, à medida que segmentos da população se sentem ameaçados pela mudança no mercado de trabalho.
Caminhos para o Brasil
Para equilibrar desafios e oportunidades, o Brasil deve:
- Implementar reformas fiscais e previdenciárias que garantam ambiente de negócios sustentável e atratividade a investidores de longo prazo.
- Ampliar investimentos em infraestrutura de transporte e energia, reduzindo custos logísticos e fortalecendo a cadeia de valor interna.
- Fomentar a indústria de alta tecnologia, com incentivos à pesquisa e desenvolvimento, para agregar valor aos produtos exportados.
- Estabelecer acordos bilaterais e regionais que priorizem mercados emergentes, diversificando destinos de carga e serviços.
Este conjunto de ações cria um equilíbrio entre globalização e autonomia, permitindo ao país prosperar sem abrir mão da segurança econômica.
Conclusão: Buscando um Equilíbrio
A desglobalização não significa isolamento. Ao contrário, convida a uma globalização mais seletiva e consciente, onde países definem prioridades locais sem renegar a cooperação internacional.
No Brasil, esse momento pode ser o ponto de inflexão para uma trajetória de crescimento inclusivo e sustentável. Com reformas estruturais, foco em tecnologia e acordos estratégicos, é possível transformar desafios em oportunidades reais de desenvolvimento.
O dilema da desglobalização se resolve com visão de longo prazo: preservar alianças e, ao mesmo tempo, cultivar autonomia, garantindo que a próxima onda de crescimento seja equitativa e duradoura.
Referências
- https://www.totvs.com/blog/gestao-logistica/desglobalizacao/
- https://istoedinheiro.com.br/a-volta-de-trump-e-os-impactos-para-o-brasil-em-um-cenario-de-des-globalizacao
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Desglobaliza%C3%A7%C3%A3o
- https://jornal.usp.br/atualidades/movimento-de-desglobalizacao-causa-retracao-na-economia-mundial/
- https://m.suapesquisa.com/economia/desglobalizacao.htm
- https://www.scielo.br/j/rep/a/6SCPdxxBgv8n7DSkXPKJ34N/
- https://ippur.com.br/desglobalizacao-ou-globalizacao-diferente/
- https://cofecon.org.br/cofecon/?p=25462
- https://www.ppg.revistas.uema.br/index.php/cienciageografica/article/download/4217/2819
- https://repositorio.ipea.gov.br/bitstreams/9de5b6e5-5b42-4a39-9c49-e9d10428f69d/download
- https://www.youtube.com/watch?v=oldUobKW5y4
- https://repositorio.ipea.gov.br/bitstreams/e9cc9480-9412-4ffa-a8a1-afd17a86b5f9/download
- https://ilos.com.br/a-desglobalizacao-e-uma-tendencia-que-veio-pra-ficar/
- https://www.ucp.pt/pt-pt/press/abel-mateus-o-impacto-da-desglobalizacao-e-os-perigos-de-uma-fragmentacao-economica-nivel







