Nas últimas décadas, o avanço tecnológico e as crises financeiras consecutivas colocaram as CBDCs no centro das discussões monetárias. Hoje, 98% da produção econômica global está nas mãos de países que pesquisam ou planejam o lançamento de moedas digitais de banco central. Essa mobilização sem precedentes pressagia mudanças profundas nos sistemas de pagamento, nas políticas monetárias e no equilíbrio de poder entre bancos, governos e cidadãos.
Enquanto economias avançadas como a área do euro avançam em projetos de moeda digital, mais de 100 países exploram diferentes modelos, desde versões interbancárias até soluções de varejo. Esse movimento reflete uma busca constante por estabilidade financeira em meio à volatilidade dos mercados e pela criação de ferramentas inovadoras que reduzam custos e ampliem o acesso a serviços bancários.
A Corrida Global pelas CBDCs
O panorama global revela uma diversidade de motivações que guiam essas iniciativas. A combinação de inflação alta, instabilidade geopolítica e a expansão de criptomoedas privadas pressionou bancos centrais a considerar ativos digitais seguros e soberanos. Nesse contexto, três objetivos principais emergem:
- Promover inclusão financeira digital e sustentável para populações sem acesso bancário.
- Fortalecer a estabilidade monetária e a política pública diante de choques econômicos.
- Estimular crescimento econômico inclusivo e sustentável por meio de tecnologias emergentes.
Atualmente, cerca de 86% dos bancos centrais estão em estágios de pesquisa, desenvolvimento ou piloto. Essa adoção acelerada demonstra o reconhecimento da necessidade de inovação para enfrentar desafios macroeconômicos complexos.
Modelos Teóricos e Trade-Offs
Estudos recentes indicam que a introdução de uma CBDC altera as dinâmicas do sistema financeiro, gerando benefícios e riscos distintos. Um modelo calibrado para os EUA sugere que uma taxa ótima de CBDC em 0,8% ao ano maximiza o bem-estar social, alcançando ganho de 27 pontos base. Taxas inferiores podem limitar a atração de recursos, enquanto taxas elevadas podem causar desintermediação bancária severa e rápida.
Na área do euro, onde 80% do financiamento depende do sistema bancário, o balanço é mais delicado. A CBDC com taxa ótima de 0,6% gera cerca de 18 pontos base de ganho de bem-estar. A sensibilidade maior ao crédito bancário reforça a necessidade de calibrar cuidadosamente os parâmetros de remuneração dos saldos digitais.
Além disso, em ambientes de juros altos, como taxa de política em 5%, o spread dos depósitos tradicionais pode cair de 2,5% para 0,7%, alterando profundamente a rentabilidade dos bancos e potencialmente elevando o custo de empréstimos para empresas e consumidores.
Impactos no Setor Bancário e Estabilidade Financeira
Do ponto de vista do sistema bancário, a adoção de CBDCs de varejo apresenta maior potencial disruptivo. A migração de depósitos pode reduzir a capacidade de concessão de crédito, tornando o funding bancário mais caro e limitando investimentos privados. Esse cenário exige que bancos e reguladores repensem modelos de negócios e regras de liquidez.
- Em economias emergentes, a CBDC pode funcionar como um porto seguro em crises, acelerando corridas a bancos vulneráveis.
- A desintermediação pode aumentar a demanda por criptomoedas privadas e moedas estrangeiras, gerando riscos adicionais de informalidade monetária.
Por outro lado, modelos interbancários de CBDC tendem a causar disrupções mínimas, mantendo o fluxo de crédito regular e protegendo a função de intermediação dos bancos.
Diferenças Regionais
A diversidade de estruturas econômicas e financeiras ao redor do mundo convoca abordagens sob medida:
Na América Latina e em outras economias em desenvolvimento, a maior dependência de intermediários bancários e a menor profundidade dos mercados financeiros tornam as CBDCs de varejo mais arriscadas para a estabilidade.
No entanto, em países como o Brasil, há potencial elevado para inovações que vão além dos pagamentos, como tecnologia blockchain para metas climáticas, ampliando o mandato dos bancos centrais para enfrentar desafios ambientais.
Na zona do euro, o euro digital avança metodicamente, com ênfase em interoperabilidade e regulamentação, visando a oferta de um ativo público digital que complemente o sistema bancário sem ameaçá-lo.
Perspectivas para Pagamentos Transfronteiriços e Interoperabilidade
Um dos grandes trunfos das CBDCs é a redução substancial de custos em transações internacionais. Pagamentos transfronteiriços com baixo custo e maior velocidade podem impulsionar o comércio e a inclusão em regiões antes marginalizadas por taxas elevadas e processos burocráticos longos.
Para alcançar esse potencial, interoperabilidade entre diferentes sistemas de CBDC e infraestrutura financeira privada é crucial. Padrões técnicos e acordos multilaterais garantirão fluxo contínuo de informações e liquidez entre jurisdições.
Clima, Sustentabilidade e Riscos Emergentes
Além das funções monetárias, as CBDCs podem contribuir para metas de sustentabilidade. A tecnologia de registro distribuído oferece rastreabilidade de transações ligadas a ativos verdes, facilitando incentivos regulatórios e subsídios para práticas sustentáveis.
Paralelamente, as tensões geoeconômicas e a desinformação aumentam a complexidade do universo digital. Design regulatório simplificado e competitivo é fundamental para enfrentar riscos de polarização social e garantir a confiança do público nas moedas digitais estatais.
Recomendações para um Design Ótimo de CBDCs
- Calibrar taxas de remuneração ligeiramente abaixo da taxa de política monetária vigente.
- Implementar limites de saldos e mecanismos anti-corrida para preservar a liquidez bancária.
- Assegurar interoperabilidade técnica e regulatória entre jurisdições.
- Incluir funcionalidades smart contracts que promovam projetos sociais e ambientais.
Conclusão
O advento das moedas digitais de banco central representa uma virada histórica para o sistema financeiro global. Se bem desenhadas, as CBDCs podem oferecer uma opção segura e conveniente de poupança, ampliar a inclusão e fortalecer políticas monetárias.
Contudo, o êxito depende de equilíbrio entre inovação e estabilidade. Reguladores, bancos centrais e sociedade civil devem colaborar para desenhar moedas digitais que promovam impactos macroeconômicos profundos e duradouros, garantindo um futuro financeiro mais justo e resiliente.
Referências
- https://cepr.org/voxeu/columns/macroeconomic-effects-introducing-central-bank-digital-currency
- https://www.weforum.org/stories/2023/01/central-bank-digital-currency-financial-instability-davos23/
- https://www.santander.com/en/press-room/insights/consequences-of-the-international-adoption-of-central-bank-digital-currencies-cbdcs
- https://www.gi-de.com/en/spotlight/digital-discoveries/cbdc-or-not-to-be-that-is-the-question-modeling-its-impact







