Em um mundo cada vez mais digital, as ameaças cibernéticas representam um risco sistêmico para o setor financeiro global. A conectividade acelerada e a adoção massiva de serviços eletrônicos transformaram o modo como bancos, fintechs e instituições governamentais operam. No entanto, essa evolução também expôs vulnerabilidades que podem ameaçar a solidez das transações transfronteiriças e a confiança dos investidores.
Segundo o Relatório de Riscos Globais de Davos 2026, a fraude cibernética emergiu como o principal risco global, com potenciais impactos financeiros diretos, danos reputacionais e questionamentos sobre soberania nacional. Países da América Latina, como Brasil, México e Argentina, figuram entre os doze mais afetados da região, evidenciando a urgência de fortalecer defesas e regulamentos.
Ameaças Cibernéticas e Impacto Sistêmico
Os ataques cibernéticos podem disseminar-se rapidamente por meio de interconexões financeiras e tecnológicas, afetando redes bancárias, sistemas de pagamento instantâneo como o Pix e infraestrutura crítica. Um único incidente em uma grande instituição pode causar bloqueio de liquidez, perda de acesso a contas e até corridas bancárias em situações extremas.
Ferramentas de hacking tornaram-se cada vez mais acessíveis e poderosas, permitindo que agentes menos qualificados provoquem danos significativos. O aumento de ataques aponta para um cenário em que criminosos exploram falhas em APIs, ambientes de nuvem e sistemas legados, sem respeitar fronteiras geográficas.
Além dos prejuízos diretos, há impacto na continuidade dos negócios e na confiança de investidores estrangeiros. Essa fragilidade estrutural desafia o modelo de governança, exigindo não apenas protocolos técnicos, mas também estratégias integradas de resposta e recuperação.
Panorama Regulatório Brasileiro e Internacional
No Brasil, as Resoluções CMN 5.274/2025 e BCB 538/2025, vigentes desde 1º de março de 2026, estabeleceram quatorze controles mínimos obrigatórios para instituições financeiras. Entre eles, autenticação forte (MFA), criptografia de dados, prevenção e detecção de intrusões, hardening de sistemas e monitoramento de ameaças em internet e dark web.
Complementam o arcabouço regulatório a Resolução CMN 4.893/2021, que reforça políticas de confidencialidade, integridade e disponibilidade, além de normas da CVM, da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e diretrizes de prevenção à lavagem de dinheiro. Esses instrumentos avançaram da abordagem de “melhores práticas” para obrigações auditáveis e documentadas.
No âmbito internacional, o alinhamento avança com o Digital Operational Resilience Act (DORA) da União Europeia, padrões ISO 27001, frameworks NIST e orientações do Grupo de Ação Financeira (GAFI). A convergência regulatória, promovida por organismos como o Basel Committee e o FSB, busca reduzir custos e ampliar cooperação transfronteiriça.
Principais Estratégias de Mitigação
O Fundo Monetário Internacional destaca seis estratégias fundamentais para mitigar riscos cibernéticos e proteger a estabilidade financeira:
- Mapeamento de dependências e quantificação de riscos operacionais entre instituições e provedores.
- Convergência regulatória internacional para harmonizar normas e reduzir barreiras.
- Desenvolvimento de capacidade de resposta e recuperação rápida, especialmente em países emergentes.
- Compartilhamento de informações público-privado, superando restrições legais.
- Dissuadir criminosos por meio do confisco de ativos e cooperação judiciária.
- Fortalecimento das capacidades locais para fomentar inclusão financeira e resiliência.
Desafios e Tendências Futuras
A crescente dependência de APIs e serviços em nuvem cria novos riscos sistêmicos interligados. A segregação lógica e física de ambientes, o monitoramento contínuo e o hardening de aplicações são essenciais para evitar pontos únicos de falha.
A rivalidade tecnológica entre Estados Unidos e China, aliada ao avanço da inteligência artificial, gera uma verdadeira “corrida espacial cibernética” que pode elevar a sofisticação dos ataques. Essa dinâmica aumenta as incertezas sobre soberania e controle de dados.
A colaboração entre bancos, reguladores, empresas de tecnologia e provedores críticos ainda é incipiente. Superar diferenças jurisdicionais e promover exercícios conjuntos de simulação de incidentes são passos necessários para criar uma cultura global de resiliência.
Conclusão e Recomendações
A segurança cibernética deixou de ser um diferencial competitivo para se tornar requisito mínimo de sobrevivência no setor financeiro. Instituições que investem em resiliência operacional e soberania cibernética estarão melhor preparadas para enfrentar crises e manter a confiança de clientes e investidores.
Recomenda-se a adoção imediata dos controles obrigatórios, a realização anual de testes de intrusão independentes e a construção de parcerias internacionais. Somente por meio de uma abordagem integrada, que combine tecnologia, governança e cooperação, será possível assegurar a estabilidade do sistema financeiro global.
Referências
- https://www.imf.org/pt/blogs/articles/2020/12/07/blog-cyber-risk-is-the-new-threat-to-financial-stability
- https://www.contabeis.com.br/artigos/74743/novas-regras-de-ciberseguranca-para-o-setor-financeiro/
- https://www.youtube.com/watch?v=7YTn9UVbWy8
- http://www.tjsauditores.com.br/2025/12/19/bc-atualiza-requisitos-de-seguranca-cibernetica-de-instituicoes-financeiras/
- https://www.fincatch.com.br/post/novas-regras-do-banco-central-elevam-exig%C3%AAncia-de-ciberseguranca-e-pressionam-fintechs-a-comprovar-c
- https://www.redbelt.com.br/blog/ameacas-ciberneticas-ao-setor-financeiro/
- https://rtm.net.br/leis-de-ciberseguranca/
- https://www.bcb.gov.br/detalhenoticia/20979/nota
- https://www.meioemensagem.com.br/proxxima/ciberseguranca-desafios-e-riscos-no-sistema-financeiro
- https://secoffice.com.br/blog/resolucao-cmn-4-893-guia-completo-sobre-seguranca-cibernetica-para-instituicoes-financeiras/
- https://www.apdc.pt/noticias/atualidade-internacional/connect-europe-alerta-para-impacto-do-novo-pacote-de-ciberseguranca
- https://cryptoid.com.br/criptografia-identificacao-digital-id-biometria/davos-2026-global-risks-report-revela-por-que-ciberseguranca-virou-questao-de-soberania/







